27 de abril de 2024 • Por Equipa Pawsome
Por Que Cães Comem Fezes? Entenda a Coprofagia e Como Reduzir
Coprofagia — o ato de ingerir fezes — é um comportamento frequente em cães e tem causas diversas, que vão desde exploração e tédio até fatores clínicos como deficiências nutricionais ou parasitas. Identificar a causa é o passo inicial para reduzir o comportamento de forma eficaz.
O Que É Coprofagia?
Coprofagia é o ato de ingerir fezes, sejam elas do próprio animal, de outros cães ou de outras espécies. O comportamento pode ocorrer de forma ocasional ou tornar-se um padrão regular. Embora seja perturbador para os humanos, para os cães pode fazer sentido dentro de certos contextos biológicos e comportamentais.
É importante distinguir entre coprofagia inata — que ocorre em algumas fases naturais da vida do animal — e coprofagia adquirida, que surge como resposta a fatores ambientais, emocionais ou clínicos. Cadelas que amamentam, por exemplo, lambem as fezes dos filhotes como comportamento de limpeza do ninho. Filhotes também podem explorar as fezes como parte da descoberta do ambiente. Já em cães adultos, o comportamento merece uma investigação mais cuidadosa.
Possíveis Motivos por Trás da Coprofagia
Exploração e Aprendizado por Imitação
Cães são animais que exploram o mundo em grande parte pelo olfato e pela boca. Para filhotes especialmente, cheirar e até ingerir fezes pode ser parte de um processo de descoberta do ambiente. Cães adultos podem aprender o comportamento por imitação — se convivem com outros cães que fazem isso, é possível que comecem a reproduzi-lo.
Ambiente Pobre em Estímulos
Um dos fatores mais comuns e subestimados é a falta de enriquecimento ambiental. Cães que passam muitas horas sozinhos, sem atividade física adequada, sem brinquedos interativos e sem estímulo mental, podem buscar qualquer forma de ocupação — incluindo explorar e ingerir fezes. Nesse caso, o comportamento é essencialmente uma resposta ao tédio e à frustração acumulada.
Ansiedade e Estresse
Cães ansiosos podem desenvolver comportamentos compulsivos ou atípicos como forma de lidar com o desconforto emocional. A ansiedade de separação, mudanças no ambiente doméstico, conflitos entre animais da casa ou rotinas imprevisíveis podem contribuir para o surgimento ou manutenção da coprofagia.
Punição Intensa no Passado
Há uma teoria comportamental bem documentada sobre cães que foram punidos severamente após defecar em locais inadequados. Para evitar a punição, o animal pode aprender a “eliminar as evidências” consumindo as próprias fezes. Esse ciclo perverso é criado justamente pelo uso de punições físicas ou intimidação durante o processo de educação sanitária.
Competição por Recursos e Hierarquia no Grupo
Em lares com múltiplos cães, a coprofagia pode surgir relacionada à dinâmica de grupo. Cães com acesso limitado a recursos, ou que sentem pressão social dos outros animais, podem ingerir fezes como resposta a esse ambiente de tensão.
Causas Clínicas e Nutricionais
Nem sempre o problema é comportamental. Algumas condições médicas podem tornar as fezes atrativas ou levar o animal a ingerir substâncias incomuns:
- Deficiências nutricionais: dietas desequilibradas podem levar o cão a buscar nutrientes nas fezes, especialmente enzimas digestivas ou micronutrientes ausentes na alimentação.
- Parasitas intestinais: infestações podem interferir na absorção de nutrientes, criando uma sensação constante de fome ou carência.
- Síndrome de má absorção: condições como doença inflamatória intestinal ou insuficiência pancreática exócrina podem resultar em fezes com alto valor nutricional não absorvido, tornando-as atraentes para o animal.
- Diabetes e uso de corticosteroides: ambos podem aumentar o apetite de forma significativa, levando o cão a ingerir qualquer coisa disponível.
Como Identificar a Causa no Seu Cão
Antes de implementar qualquer estratégia de manejo, vale fazer uma análise honesta da situação:
- Quando o comportamento começou? Um início recente pode indicar mudança ambiental ou clínica.
- O cão come as próprias fezes, de outros cães ou de outras espécies? Cães que comem fezes de gatos, por exemplo, podem estar atraídos pelo alto teor proteico da dieta felina.
- Há outros sinais clínicos? Perda de peso, diarreia crônica, pelagem opaca e letargia são sinais de alerta.
- Qual é a rotina de atividade e enriquecimento? Quantas horas o cão fica sozinho? Tem acesso a brinquedos, passeios e interação?
Estratégias Práticas para Reduzir a Coprofagia
Recolher as Fezes Imediatamente
A medida mais simples e eficaz é eliminar o acesso. Recolher as fezes logo após a eliminação impede que o comportamento ocorra e se reforce. Em cães que comem as fezes de outros animais da casa, é essencial manter o ambiente limpo e supervisionado.
Aumentar Enriquecimento Ambiental e Atividade Física
Se a causa raiz for tédio ou falta de estimulação, o tratamento é claro: mais exercício, mais interação e mais desafios cognitivos. Passeios mais longos, sessões de treino com reforço positivo, brinquedos de trabalho alimentar (como Kongs e puzzles), e tempo de qualidade com o tutor podem transformar o comportamento em semanas.
Treinar um Comando de Interrupção
Ensinar um comando como “deixa” ou “vem” e reforçá-lo consistentemente com recompensas permite interromper o comportamento antes que ele se complete. O objetivo é redirecionar a atenção do cão para algo mais positivo assim que ele se aproximar das fezes.
Rever a Dieta e a Rotina Alimentar
Em conjunto com o veterinário, avaliar se a dieta atual atende às necessidades do animal é fundamental. Dietas de boa qualidade, com proteínas de alto valor biológico e suplementação adequada quando indicada, podem reduzir a busca por “complementos” nas fezes. Alimentar o cão com maior frequência (dividindo a ração em mais porções menores) também pode ajudar em animais muito gulosos.
Suplementos Enzimáticos e Nuticionais
Alguns veterinários recomendam suplementação de enzimas digestivas ou a adição de certas substâncias à dieta que tornam as fezes menos atraentes. Produtos como abacaxi fresco ou suplementos comerciais específicos podem ajudar em alguns casos, embora a eficácia varie entre indivíduos.
O Que Evitar
Punição Física ou Verbal Intensa
Punir o cão ao flagrá-lo comendo fezes raramente resolve o problema e frequentemente o piora. O animal pode simplesmente aprender a esconder o comportamento, tornando a supervisão mais difícil. Pior ainda, como mencionado anteriormente, pode criar um ciclo em que o cão ingere as fezes antes de ser punido.
Abordagem Inconsistente
A inconsistência na resposta do tutor cria confusão. Se às vezes o comportamento é ignorado e outras vezes punido, o cão não consegue aprender o que é esperado dele. A chave é uma resposta calma, consistente e focada na prevenção e no redirecionamento.
Ignorar os Fatores Ambientais
Muitos tutores buscam soluções rápidas — produtos, sprays, suplementos — sem investigar o ambiente em que o cão vive. Sem abordar as causas raízes, qualquer solução tende a ser temporária.
Quando Investigar Clinicamente
Se a coprofagia é um comportamento novo, persistente ou vem acompanhada de outros sinais como perda de peso progressiva, vômitos frequentes, diarreia, pelo opaco ou mudança no apetite, uma avaliação veterinária completa é essencial. O veterinário pode solicitar exames parasitológicos de fezes, hemograma e outros testes para descartar causas clínicas antes de avançar para um plano comportamental.
Mesmo sem sinais clínicos óbvios, se o comportamento não responder a estratégias ambientais e de manejo em algumas semanas, vale consultar um médico veterinário comportamentalista ou um profissional de comportamento animal certificado.
Riscos da Coprofagia para a Saúde
Além de ser indesejável, a coprofagia tem riscos reais para a saúde do animal. A ingestão de fezes de outros animais pode transmitir parasitas intestinais, bactérias patogênicas e vírus. Cães que ingerem fezes de animais silvestres ou desconhecidos estão em risco particular. Manter a vermifugação e a vacinação em dia é ainda mais importante nesses casos.
Conclusão
A coprofagia tem manejo eficaz na maioria dos casos quando a causa real é identificada e abordada — seja ela comportamental, ambiental ou clínica. Enriquecimento ambiental, ajuste da dieta, supervisão e, quando indicado, suporte veterinário são as ferramentas mais consistentes. Punição raramente resolve o problema e pode agravá-lo.